Produtor se inspira em trilhas de filmes para dar identidade pop ao gospel: ‘Segmento novo’


Produtor Matheus Charles explica como ajudou cantora Gabriela Rocha a reinventar som com ‘estética soundtrack’. Série do g1 mostra como gospel vai além do louvor de adoração. Os vários ritmos da música gospel
Há cerca de quatro anos, Matheus Charles ajudou a cantora gospel Gabriela Rocha a fazer uma transição no seu som.
Charles é produtor musical e tecladista da artista, que teve o sexto vídeo mais visto no YouTube no Brasil em 2023. Ele foi o responsável por inserir, no repertório da artista, elementos inspirados em trilhas de filmes e games, criando uma identidade mais pop.
“A Gabriela tem anos de carreira. Para você virar a chave para um público, é muito complicado. Você não pode dar uma virada muito brusca. Antes, ela estava no pop rock, um estilo mais fácil de consumir.”
“E, depois de alguns anos fazendo muitos trabalhos com ela, eu consegui implementar uma sonoridade estética mais ‘soundtrack’ [trilha sonora, em inglês], que é uma identidade sonora minha, e que ela me dá liberdade para colocar”, explica o produtor, em entrevista ao g1.
Nesta semana, o g1 apresenta artistas de vários estilos da música gospel, mostrando que o gênero vai além do louvor de adoração e se mistura com todos os ritmos e batidas.
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Matheus Charles com Gabriela Rocha
Reprodução/Instagram
O momento da virada aconteceu em 2021, com a música “Creio que tu és a cura”. Depois vieram “Os sonhos de Deus” e “Me atraiu (Reimagined)”, todas focadas no piano e elementos de cordas. Matheus sente que seu trabalho com Gabriela acabou influenciando outros nomes do mercado gospel.
“A Gabriela hoje é uma artista enorme, então, quando a gente faz algo, fica muito em evidência. As pessoas querem fazer igual.”
“E eu já vi muita gente fazendo, replicando coisas que eu tenho feito. É quase o nascimento de um segmento novo.”
Quem é Matheus Charles?
Matheus Charles, tecladista e produtor musical de Gabriela Rocha
Reprodução/Instagram
Matheus Charles tem 24 anos e trabalha com música desde os 15. O pai do produtor era vendedor da Modern Sound, uma histórica casa de discos em Copacabana, no Rio de Janeiro, que fechou suas portas em 2010.
“O meu crescimento musical foi com o meu pai me dizendo o que era a música para eu poder escutar. Com 6 anos, eu estava estudando música clássica. Desde pequeno, meu pai me colocava para poder escutar música dos anos 1980: Tears For Fears, Gary Moore, A-ha…”, relembra o artista.
Aos 17 anos, Matheus começou a trabalhar com Gabriela Rocha. Primeiro, como tecladista. Depois, com muita insistência, foi conseguindo espaço na produção. “Eu sempre fui muito ligado à produção musical. Eu era chato. Era aquela pessoa que era insuportável, porque eu só falava disso o tempo todo.”
“E aí, aos poucos, ela foi deixando para mim algumas missões um pouco mais complicadas. Acho que foram testes. Um dia, ela falou: ‘Matheus, quero que você produza para mim o álbum ‘Ecoar'”. O disco foi lançado em 2021.
Desde então, Matheus se mantem na produção musical dos álbuns de Gabriela, incluindo o projeto infantil “Pequenos Levitas”.
Matheus Charles em imagem de quando era bebê, mas já mostrava interesse na música
Reprodução/Instagram
Com o crescimento constante do mercado gospel, em especial, após a pandemia de coronavírus, ele também assina projetos com outros artistas.
“É um mercado muito grande. Tem amigos e produtores que me passam trabalhos, porque não dão conta de fazer tanta produção. É muita coisa.”
Estética ‘soundtrack’
Para deixar a assinatura da estética “soundtrack” em seus projetos, Matheus fica ligado nas telonas. “A trilha sonora dos filmes é uma coisa muito rica.”
Uma de suas maiores referências é o longa “Interstelar” (2014), que tem a trilha sonora assinada por Hans Zimmer. Outra inspiração para o produtor é a faixa “On the Nature of Daylight”, de Max Richter, usada na trilha do filme “A chegada”.
Matheus Charles, tecladista e produtor musical de Gabriela Rocha
Reprodução/Instagram
E, como na infância através das indicações do pai, ele segue antenado em diversos gêneros musicais, incluindo os seculares — como são chamados aqueles que estão fora do universo gospel. “Para mim, é muito normal falar para você que eu escuto [músicas seculares]. Mas eu sei que algumas pessoas têm barreiras com isso.”
“Mas no meu caso, eu sou produtor musical, então se eu ficar preso a um tipo de música só, eu vou ficar estacado para sempre numa mesmice que eu vou provavelmente cair no esquecimento.”
Cenário secular
Ao analisar o cenário gospel, Matheus avalia que o gênero estourou uma bolha na pandemia. “A riqueza da letra na música gospel é uma coisa muito profunda, que a pessoa escuta e se identifica. Música é muito sobre identificação.”
“Acho que, agora, a gente conseguiu de fato furar a bolha, com pessoas que não tinham nada a ver com esse segmento.”
O produtor cita como exemplo Caetano Veloso levando ao palco de seu show com a irmã, Maria Bethânia, a música “Deus cuida de mim”, do pastor Kleber Lucas. Outros exemplos são Maria Gadu cantando “Sonda-me, usa-me”, de Aline Barros, em sua live em 2021, e Simone Mendes cantando “Deus de promessas” em parceria com Davi Sacer.
“A gente pode dizer que os caras conseguiram divulgar a música involuntariamente.”
“E a pessoa não precisa ser crente para poder curtir uma música gospel. A pessoa sente uma paz natural ali. Eu já cansei de ouvir relatos de pessoas que não eram crentes, simplesmente ouviram uma música e falaram: ‘Matheus, eu senti uma paz aqui que eu não consigo explicar’.”
“Essa paz, que na verdade a gente sabe que é o Espírito Santo, é uma coisa que prende as pessoas. Elas ficam quase dependentes. E isso abre portas para outras coisas, até para a pessoa se converter para Cristo e conhecer o amor de Jesus.”
Matheus Charles, tecladista e produtor de Gabriela Rocha
Reprodução/Instagram

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